domingo, 2 de maio de 2010

A Inexorabilidade do Nada..

Quando estou "me achando" e sob qualquer surto megalomaníaco, uso como técnica para voltar "para casinha" uma visitinha ao site do Hubble, o aniversariante do mês(aliás). Quando entro naquelas imagens tudo volta à sua dimensão inicial e torna a seguir seu rumo incerto e ilógico, elucidando o ocaso de mais um delírio de grandeza deste exemplar da raça "humana" que aqui se manifesta.(tolinha)


Quando estou diante do inexorável torno-me apenas mais uma variável.


Esta semana li três matérias que , de alguma forma , convergem para um mesmo ponto de interseção: a tecnologia face ao que chamamos de mundo contemporâneo ou globalizado e o quão ingênuos somos ao nos acharmos tão perto do limite.


Um dos textos do médico e cirugião americano Atul Gawande sobre uma importante fronteira do conhecimento que é o cérebro humano. O artigo exibe, a partir de um estudo sobre a coceira, seu poder misterioso como chave para uma nova teoria sobre o cérebro e o corpo, uma revelação clara de como estamos distantes de desvendar a grande metáfora deste universo. Transcrevi um trecho extenso, mas significativo para sua compreensão clara . Ele afirma : " Um novo entendimento científico da percepção emergiu nas últimas décadas, suplantando crenças clássicas e multisseculares sobre o funcionamento do cérebro - embora ainda não tenha sido acolhida por toda a comunidade médica. A forma antiga de entender a percepção é a que os cientistas chamam de "visão ingênua", uma concepção que a maioria das pessoas ainda adota. Tendemos a achar que, normalmente, percebemos as coisas do mundo de maneira direta. Acreditamos que a dureza de uma pedra, a frigidez de um cubo de gelo ou a aspereza de um suéter de lã que nos causa coceira são captadas por nossas terminações nervosas e transmitidas ao longo da medula espinhal, como uma mensagem telegráfica que percorre um fio, sendo finalmente decodificadas pelo cérebro"


"George Berkeley opôs-se a essa concepção. Não conhecemos o mundo dos objetos, dizia ele, só nossas ideias mentais dos objetos. "A luz e as cores, o calor e o frio, a extensão e os números - numa palavra, as coisas que vemos e sentimos - não são apenas sensações, noções, ideias?" De fato, concluía ele, os objetos do mundo podem não passar de invenções da mente, colocadas ali por Deus. Ao que Samuel Johnson deu sua famosa resposta, chutando uma pedra e declarando: "É assim que eu refuto o que ele diz!"


Berkeley reconheceu algumas falhas graves na teoria da percepção direta. Ela não explica como podemos ter experiências que parecem reais, mas não são: sensações de coceira produzidas só pelo pensamento, sonhos que parecem quase indistinguíveis da realidade; sensações-fantasmas que os amputados têm nos membros que perderam. Supunha-se que os dados sensoriais que recebemos dos olhos, ouvidos, nariz, dedos e assim por diante, continham toda a informação de que precisamos para a percepção, e que ela funcionava mais ou menos como um rádio. É difícil imaginar que um concerto da Orquestra Sinfônica de Boston possa estar contido numa onda de rádio. Mas está. E podemos achar que o mesmo ocorre com os sinais que recebemos do mundo exterior - que, se pudéssemos conectar os nervos de uma pessoa a um monitor, poderíamos ver o que ela está experimentando, como se fosse um programa de televisão.À medida que os cientistas se dedicaram a analisar os sinais nervosos, no entanto, descobriram que eles eram radicalmente empobrecidos. Imagine que estamos vendo uma árvore numa clareira. Baseando-nos unicamente nas transmissões, ao longo do nervo óptico, da luz que entra pelos nossos olhos, jamais seríamos capazes de reconstruir a tridimensionalidade da imagem, a distância que nos separa da árvore ou os detalhes da sua casca - atributos que percebemos instantaneamente.Ou basta pensar no que os neurocientistas chamam de "problema da ligação". Quando acompanhamos com o olhar um cachorro que corre por trás de uma cerca de tábuas, tudo que nossos olhos recebem são imagens verticais separadas do cachorro, do qual ficam faltando grandes fatias. Mas sempre damos um jeito de perceber o animal por inteiro, como uma entidade intacta que se desloca pelo espaço. Se pusermos dois cachorros atrás da cerca, não iremos achar que se fundiram num só. Nossa mente passará a configurar as fatias como duas criaturas independentes.As imagens da nossa mente são extraordinariamente ricas. Somos capazes de dizer se uma coisa é líquida ou sólida, pesada ou leve, se está viva ou morta. Mas a informação a partir da qual operamos é pobre - uma transmissão distorcida e bidimensional à qual faltam partes inteiras. É a mente que preenche as lacunas e responde pela maior parte da imagem. Isso pode ser percebido em muitos estudos de anatomia cerebral. Se as sensações visuais fossem primariamente recebidas, e não construídas pelo cérebro, era de se esperar que a maioria das fibras que chegam ao córtex visual primário do cérebro viesse da retina. Cientistas descobriram, porém, que este só é o caso de 20% delas; 80% descem das regiões do cérebro que comandam funções como a memória. Richard Gregory, um eminente neuropsicólogo britânico, calcula que a percepção visual seja composta de mais de 90% de memória e menos de 10% de sinais dos nervos sensórios. "


"A definição de percepção, que começa a se estabelecer, poderia se chamar de teoria do "melhor palpite do cérebro": a percepção seria o melhor palpite do cérebro sobre o que ocorre no mundo exterior. A mente integra sinais esparsos, fracos e rudimentares oriundos de uma variedade de canais sensoriais, além de informações de experiências passadas e processos nervosos, para produzir uma experiência sensorial que o cérebro dota de cor, som, textura e significado. Vemos um cachorro correndo aos saltos por trás de uma cerca de tábuas não porque seja esta a transmissão que recebemos, mas porque é a percepção que o nosso cérebro, como um bom tecelão de fios soltos, nos apresenta como sua melhor hipótese do que está acontecendo no mundo exterior, a partir das informações parciais que recebe. Perceber é inferir."(...)(publicado na revista Piauí, edição de Março/10)


Perceber é inferir. Fico com esta frase para significar que ao penetrar no âmbito destas compreensões preciso incorporar-me a elas. Ao observar imagens captadas pelo telescópio Hubble preciso preencher um espaço, uma lacuna em aberto em minha percepção, que ainda não foi tangida por qualquer tecnologia. É preciso que eu use informações das quais(não) disponho em minha memória para formar uma idéia . Desta forma, muitas das compreensões que faço a respeito do que vejo e sinto em meu dia à dia não passam de " deduções" operadas em meu processador de memórias . Isto é muito inquietante.

Traduzindo este ponto de vista para nossa compreensão global fica a idéia de que há muito mais lacunas do que conhecimento e portanto, podemos estar sujeitos a cometer grandes equívocos. Ironicamente a neurociência ( que está na moda) vem revelando inúmeras surpresas acerca de nossas potencialidades, mas que vem acompanhadas por uma torrente de novas questões obscuras.


Quando vislumbro imagens de galáxias distantes, nebulosas ou estrelas pareço estar diante de questões insolúveis, mas aqui bem dentro está minha própria máquina , um campo fértil de propõrções idênticas e com lacunas ídem.Complexidade, atemporalidade, limite entre realidade e ficção.
Sim, mas falando em tecnologia e suas contradições, ai vai o segundo artigo que li. Um Ensaio de André Petry, também sobre a ambivalência que alguns atribuem à tecnologia e há algumas considerações que, à propósito, transcrevi :

(...)"A tecnologia não é a invenção de um gênio solitário. Ela é o resultado do acúmulo de conhecimento. A tendência é que, quanto mais conhecimento houver, mais tecnologia venha a ser produzida. Essa é sua força. O caráter cumulativo da criação tecnológica explica a velocidade geométrica das novidades e está na base da "singularidade tecnológica". Essa é uma teoria segundo a qual o tempo e o esforço gastos para dar os primeiros passos em uma determinada tecnologia tendem a diminuir drasticamente no caminho evolutivo. Passaram-se séculos entre o primeiro livro impresso e o pioneiro Kindle. Entre o Kindle e algo tão espetacular quanto, digamos, um projetor holográfico tridimensional miniatura de páginas impressas podem se passar apenas alguns poucos anos. A singularidade assusta por prever que, em um futuro de décadas, as máquinas serão infinitamente mais poderosas do que o cérebro humano na sua capacidade de pensar. Isso porque, na capacidade de processar dados, o cérebro humano já perdeu a corrida no século passado.
Ei-nos de volta ao Frankenstein de Mary Shelley - ou seja, à tecnologia ganhando impulso autônomo e abrindo às máquinas a possibilidade de levantar-se contra a humanidade. A revolução robótica é tema recorrente no cinema desde que o diretor alemão Fritz Lang deu alma ao robô Maria no estupendo Metropolis, de 1927. O enredo já apareceu em enlatados, em obras-primas como Blade Runner, de 1982, e avançou para Matrix, de 1999, em que os humanos, já subjugados, é que se rebelam contra a opressão das máquinas. A ansiedade humana em relação à evolução tecnológica, tão clara na atmosfera claustrofóbica da ficção científica, tende a se ampliar à medida que o conhecimento tecnológico vai se sofisticando."


Sendo moralmente neutra, a tecnologia pode servir ao bem ou ao mal. (...)"


(...)O rádio transmitiu a voz de Franklin Roosevelt para ajudar os americanos a atravessar o calvário da Depressão nos anos 30 e vencer a II Guerra. Do outro lado do Atlântico, o mesmo rádio amplificou os discursos de Adolf Hitler e hipnotizou os alemães num projeto diabólico. "A tecnologia pode tanto promover o autoritarismo como a liberdade, a escassez como a fartura, pode ampliar ou abolir o trabalho braçal", escreveu o filósofo Herbert Marcuse (1898-1979), em Tecnologia, Guerra e Fascismo.(...)"


(...)"O pensamento religioso, traduzido na ideia de que somos criaturas divinamente concebidas, tende a turvar a percepção de que nossa condição natural é miserável. No tempo das cavernas, tudo era pior: o medo, a dor, a fome, a doença, o frio. A tecnologia nos retirou dessa miséria. Não a todos, mas o pedaço da humanidade que ainda vive na dor e na miséria sairá de lá com mais, e não menos, tecnologia.
A revolução da tecnologia da informação está causando um impacto imenso nas ciências: na sociologia, na psicologia, na biologia, na neurologia. Todas precisam saber, e pouco sabem, do impacto dessa tecnologia e seu imenso volume de informação no comportamento das sociedades e dos indivíduos. O mundo não é mais o mesmo - e faz pouco tempo que mudou."
(...) (Revista Veja, edição 2163. Maio /10)

O texto brilhante faz um rico inventário das conquistas que colhemos em nossa "civilização"e uma reflexão necessária a respeito do destino que escolhemos traçar a partir do advento da modernidade. É válido computar o tanto que já trilhamos rumo progresso e como este nos transformou. Sabemos que os saltos serão cada vez mais rápidos e facilmente a vida vem imitando a ficção.


O entusiasmo do ensaísta( que eu particularmente adoro ler) em defesa da tecnologia supõe que máquinas possam superar o cérebro humano. O mesmo cérebro humano que constrói 80% das sensações visuais a partir de deduções. Não é incrível?(Delírio)



Me vejo diante da inexorabilidade do nada. Acho que somos ingênuos.


O geógrafo Milton Santos chama o período que estamos vivendo de Técnico-científico-informacional. Não é lindo?


A mesma tecnologia-ciência-informação conduziu à uma perda da perspectiva. Uma deformação ou desserviço que fomenta uma indústria cultural a serviço do consumo, que por sua vez sustenta a economia e, portanto mantém e financia a pesquisa. Esta, por sua vez, patrocina o avanço tecnológico. O saldo somos nós, as feras que devoram os recursos do planeta e promovem sua destruição. Quem poderá nos salvar? A tecnologia!


Quanto mais a comunicação global se estreita, mais fácil se torna mudar ou forjar novos padrões culturais. Induz-se zilhões de pessoas a partir da moda e da cultura. São "Talk Shows" totalmente comerciais, filmes ( já comprou seu álbum do Avatar), sites, blogs, jornais , sites de relacionamentos e sei lá mais quantas formas de estabelecer contato com a mídia.


Estas mudanças levaram à gerações de usuários de ansíolíticos, antidepressivos, estimulantes. Legiões de sorrisos robotizados pelo botox e rostos marcados pela aberração da uniformização estética. Lipoesculturas , preenchimentos de sulcos, bioplastias que aterrorizam os espelhos. Uma ditadura do vazio e da mutilação do pensamento. São bilhões de seres obsoletos. Acordamos diariamente desatualizados e a mesma obsolescência que se aplica aos produtos está sendo internalizada pelas pessoas.


É preciso acordar cedo para correr atrás de aprimoramento, dos últimos acontecimentos no mercado de ações, do lançamento da coleção de moda da estação, do corpo saudável e atlético, do último best-seller e manter esta maratona implacável em nome da felicidade.


A geração da alienação, das hordas de alijados, da dimensão digital a serviço do controle econômico, cultural e , desnecessário dizer, político.A tecnologia nos encheu de conforto e nos esvaziou os sentidos. Faço outra pergunta. Qual é mesmo o estado natural de miséria?


Somos ingênuos. Não é possível generalizar e colocar a evolução tecnológica como uma pantomima ufanista e redentora.


É um embuste adorar este novo protótipo de "deus" cibernético.


Isto me levou ao outro artigo (terceiro), sobre os tradutores google. Também uma forma de aproximação e integração das sociedades. Outro flanco através do qual a tecnologia penetrou em nossas vidas. Depois do google, acho que não apareceu mais ninguém. Quem nunca perguntou nada ao Google? Hein?


Eu acredito que para conhecer um lugar, um modo de vida, uma cultura, enfim, para conhecer o outro, é preciso estabelecer uma boa comunicação. A primeira ferramenta para tanto é justamente a língua. Idiomas diferentes tem características singulares que são peculiares aquele grupo humano, à sua história, tradição e comportamento. Um tradutor gerado por inteligência artificial é uma ferramenta útil, embora não traduza caracteres essenciais para um bom entendimento. Sem dúvida, derrubar esta muralha do idioma é uma revolução na comunicação.


Hoje, pensando neste rumo que estamos tomando tive que recorrer às imagens do Hubble e às suas imprescindìveis revelações sobre tudo que acontece fora daqui, deste pálido ponto azul onde tudo começou.


Em dez mil anos saímos do estado de natureza( alguns, é bem verdade) e já estamos prestes a comprar celulares com hologramas 3D, direto de Guerra nas Estrelas.


Apesar de tudo, ainda não entendemos como funciona nosso próprio cérebro e nem sabemos quem realmente somos. Não é uma imprecação contra os otimistas de todo gênero,mas dá para ficar embasbacado.


Voltando ao texto de Atul Galwande seria prudente lembrar que "a percepção seria o melhor palpite do cérebro sobre o que ocorre no mundo exterior". (é só uma teoria)


A expansão das fronteiras do conhecimento deveria ser em prol de uma harmoniosa coalizão planetária, uma cooperação real e sincera entre as forças de todos os setores, alavancados pela tecnologia . Certo?


Então está ! Cientes de nossa própria efemeridade! De volta ao planeta dos macacos!


beijo incerto

da melind@

domingo, 25 de abril de 2010

Contatos imediatos cosmopolitas ...Jung Spock

O lugar poderia ser uma rua 24 horas, talvez um mercado público ou feira na Ìndia( é lógico). Era algo dentro da madrugada. O tom era o do Sol da Meia-Noite, não fosse pelas altas temperaturas e pela imensa umidade. Madrugada de luz e calor. Quem sabe dentro de uma foto do Hubble, a atmosfera indescritível , exceto pelo fato de que nesta dimensão tudo é possível.
Esperávamos( sim , sempre eu e alguém) um evento em cadeiras abre-fecha de metal pintado de vermelho bem brazucas e um rapazinho saído do filme" Quem quer ser um milionário" , vestindo a camisa do Esporte Clube São Paulo me xingou em linguagem adulta por ter deixado que sentassem em seu lugar.
Um casal sentou nas cadeiras ao meu lado em tom falante-constante, ou seja, barulhento-murmurante.
As luzes inconfundíveis da estrela 25042010#@!*, que acabara de nascer eram psicodelicamente agitadas.
Em frente a passarela havia uma tenda. Uma moça jovem e bonita, figurante de um filme espanhol vestia uma blusa feita com cadarços de sapato em várias cores pálidas. Em frente a uma mesa com uma toalha sem cor ela executava seu ritual e revelava suas predições.
Nada concreto ou compreensível em qualquer língua que eu conheça. Coreografava com seus cordões e emitia mantras surdos.
Enquanto ela falava alegremente comigo, eu observava uma caixa empilhada ao lado , próximo a uma janela fechada, semelhante aquela do filme "Apocalypse Now"(do Coppola), na qual o Martin Sheen delira alucinadamente. Sobre a caixa estavam quatro filhotes de Labrador (poderia ser).
Enquanto os filhores pretos ( dois) se agitavam e interagiam, brincando e pedindo carinhos( cães filhotes que não caíam da caixa e agiam como pessoas), os marrons ( dois) permaneciam deitados e apáticos, até tristes e insensíveis ao que ali acontecia. Olhares distantes e indiferentes, como Prometeu acorrentado.
Pausa para um certo momento, talvez um intervalo comercial. Lembrei que havia participado de uma reunião e expressado diversos pontos de vista, mas não estive, de fato presente nela, por isso não conseguia lembrar de nada. Inconsciência lhe enviou uma mensagem( minha caixa de correio ).
Na explosiva ocasião lumino-noturna da eventual star 25042010#@!* uma outra dimensão de luz desponta na janela, um pouco encoberta pela atmosfera carregada de nuvens. Fim do show e a nave retornou sem que houvesse uma comunicação satisfatória. É , E=mc2.

sábado, 24 de abril de 2010

Minha homenagem ao Hubble!!

Complex Dust Disk, Expected Birthplace of Planets, Around Star HD 141569A
Source: Hubblesite.org

Picture Album: Face-On, False Light Image of Dust Disk Around Star HD141569

Não parece que há alguém saindo da luz? Fantástico!!
Imagens nada absolutas para alimentar nossas percepções cada vez menos absolutas dos "universos"!!
O incrível nestas imagens do universo é que às vezes quando fechamos os olhos sob o efeito especial de nosso cérebro face à luz temos imagens semelhantes...

Ainda dá para conhecê-lo (o hubble) detalhadamente na pág.
http://www.imax.com/hubble/

beijo cósmico
da melind@

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Amizade, transição e outras coisas

Hoje eu queria falar sobre amizade. Este substantivo abstrato,友情 (yujoo), no Kanji japa-chinês que ouvi outro dia! Aprendemos esta palavra como um conceito vazio, que vamos preenchendo ao longo da vida. A cada novo ponto do tempo de nosso percurso a representação deste pensamento vai ganhando novas tintas e uma palavrinha tão singela vai ficando muito, muito complexa.

Chego a conclusão de que é muito difícil formular certas idéias por meio de palavras. Parece que não são eficientes o bastante e acaba ficando tudo no plano da percepção.

Em primeiro lugar não é um pensamento-sentimento acabado. Muda constantemente em face de nós mesmos. Nossos laços mudam a medida que crescemos e vemos o outro sob outro ponto de vista.

O que quero dizer é , simplesmente, que não é possível tratar a amizade como um conceito acabado de dicionário, quando estabelecemos que temos um "melhor amigo" ou amigo mais próximo, quase como um irmão, etc...

O fato é que os vínculos mudam junto conosco. Isto vale , por certo, para todas as formas de laços que temos.

Sob certas circunstâncias, parece que aquela sensação ou definição vai valer para sempre. E talvez até valha, se pensarmos que em nossa memória aquela referência permanecerá, cheia de gratidão e amor. Entretanto, no andar da locomotiva os espaços vão ficando distantes e os novos lugares nos transformam. Os episódios que vão se agregando a nossa história acabam por mudar os passados e abre-se uma imensa fossa, bem no meio da fortaleza conceitual chamada amizade.

O olhar para dentro e para trás vem de um ponto latitudinalmente muito distante do inicial.
Alguém já disse que vamos nos construindo a partir de nossas experiências com outros seres e estes deixam marcas indeléveis em nossa alma. São digitais que vão se imprimindo e nos tornam o que somos.
Certos traços não se preservam em nós e é uma ilusão crer no "pra sempre". Não há formas estanques em qualquer forma de vínculo ou relacionamento e como somos criaturas mutantes, transcendentes e irremediavelmente impermanentes, nenhuma forma de laço pode manter-se intocada. Há uma transitoriedade desconcertante na vida.

Há estações diferentes, que exigem roupa , comportamento e alimento adequados. Assim é o trânsito da vida com as tantas pessoas que aprendemos a amar e "conhecer" em suas cirucunstâncias. Nem sempre vai haver o encontro sincrônico das linhas imaginárias ( vidas) que conduzem a uma única e definitiva sentença.

O conceito que aprendemos com a Tia Suely na segunda série não passa de um embrião que vai passar por inúmeras fases de desenvolvimento cada vez mais distantes do absoluto, mas o fato é que é o componente mais importante , o que nos constrói, por estar presente em todos os outros (componentes).

É dele que vamos extrair elementos para apreciar e aquilatar toda e qualquer circunstância. É no entendimento da amizade que vemos nascer pressupostos como respeito, afeto, compaixão, honestidade e todos os que vão significar nosso existir.

Segundo Merleau-Ponty "as formas (....) uma síntese da natureza e da idéia, e são conjuntos de forças em estado de equilíbrio ou de mudança constante, de tal sorte que lei alguma pode ser formulada em relação às partes tomadas isoladamente, cada vetor sendo determinado, em grandeza e direção, por todos os outros."

Mais ou menos por aí funciona esta relação simbiótica entre os seres vivos e que é tão preeminente e saudável quando vivida à luz do respeito e da liberdade.

Este texto não tem owari- 終わり (fim), para usar outra expressão Kanji, assim como os laços que podemos construir ad-eternum. É preciso estar aberto para formar elos, desconstruir e reconstruir definições de nós mesmos em face do todo e cada parte.
Elos abertos by melind@
beijo

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Bigrivertown no mapa do artista.....








Tudo que vai volta, certo? Ao menos é o que parece!!

Este final de semana tive notícia de que um pequeno gesto meu contribuiu(ainda que infinitesimalmente) para que Bigrivertown, mais especificamente o Esporte Clube Rio Grande, tivesse suas cores representadas em uma instalação de arte que está no Rio de Janeiro. A camiseta emprestou suas cores à obra do artista contemporâneo Julio Leite.

Há uns bons anos um amigo que é artista plástico(paraibano) e que coleciona estas peças( camisetas de pequenos times de futebol do interior) me pediu que lhe enviasse uma camiseta do Esporte Clube Rio Grande. Meu amigo encantou-se com as cores e a estética da camisa e, apesar de discordar quanto a este quesito, enviei-lhe com todo gosto.

Avessa praticante e declarada a futebol e seus correlatos, confesso que não diferencio um ponta esquerda de uma trave, muito menos presto qualquer atenção ao que vestem os jogadores ou às cores que anunciam os clubes. Isto só denuncia minha confessa pobreza de referências sobre o assunto e óbvia alergia aos amantes da gorduchinha.

Recentemente a camisa do Rio Grande foi utilizada juntamente com outras tantas de vários clubes para compor um intrigante painel de cores montado com fotos, que faz parte de uma instalação chamada"Zona de Fronteira"!
A obra resultou em uma construção estética de cores e padrões egressas do espaço singular de identificação de cada camisa, jogadas num outro contexto e colocadas em perspectiva.
Olha a teoria do caos movendo energias!!

Reproduzo aqui um pequeno trecho do texto de Kátia Canton sobre a obra:

"PORTA COR, PORTA SINAIS"
por Kátia Canton

Tomemos como ponto de partida a idéia de que o artista Julio Leite, ao escolher para seu trabalho um cenário anônimo, não determinado, utilizou um espaço, e não um lugar. Mas, por outro lado, pelo fato de ter transformado esse espaço anônimo numa moldura para abrigar um projeto conceitual e esteticamente organizado, o artista passou a territorializá-lo.

(...)
No trabalho de Julio Leite, as camisas de times de futebol portadas pelos corpos, registradas nas fotografias, mostradas em seriação ou projetadas nas paredes, tornam-se flashes, instantes, onde se alterna o anonimato do corpo comum com a singularidade do corpo que porta uma certa cor, um certo emblema ou número.
(...)
Aqui, o artista parece nos colocar mais uma questão: na repetição e no acúmulo dessas padronagens e cores, seriadas através das fotografias, seria possível apagarmos a idéia do futebol e dos times e focarmos apenas na dimensão formal e cromática, transformando aquelas imagens num grande quadro abstrato?

(...)
É interessante pensar que no projeto contemporâneo de Julio Leite, as duas leituras se tornam possíveis. Por um lado, as camisetas de futebol, mesmo sem o reconhecimento imediato dos times e pelo simples fato de conterem números, cores, marcas e emblemas organizados formalmente, tornam-se “porta sinais”, à medida as remetem à condição de uniformes esportivos.
Por outro lado, repetidas exaustivamente com a ajuda da máquina fotográfica, elas se tornam superfícies cromáticas, livrando-se momentaneamente de sua carga simbólica. É nesse momento que se tornam apenas “porta cores”.

Essa simultaneidade parece assinalar a coexistência de aspectos formais e simbólicos, entremeados e misturados na condição da obra de arte contemporânea

*Katia Canton é PhD em Artes Interdisciplinares pela Univesidade de Nova York e livre-docente em teoria e crítica de arte pela ECA USP. É professora-associada e curadora do Museu de Arte Contemporânea da USP e autora de vários livros sobre arte e histórias

Beijo
infinitesimal
da melind@

domingo, 18 de abril de 2010

Um outro filme......ADAM

Já na primeira cena me identifiquei. Minha Alice( do país das maravilhas) abriu os olhos e fitou a tela fixamente. Poderia ser também meu "Pequeno Príncipe" .
Encontrei o olhar de "Adam", o ator inglês Hugh Dancy, protagonista do drama( encontrado no gênero comédia), já na cena seguinte. Distante , seu olhar procurava algum ponto no vazio, como se estivesse lendo, enquanto a terra cobria a cova onde fora enterrado seu pai. Arrebatou-me.
Sou definitivamente estranha!
Observar e identificar sentimentos em pessoas e limitar áreas de interesse. Tarefas árduas para qualquer mortal, especialmente para um portador de Síndrome de Asperger. Nosso herói é Adam.
Achei tocante a forma como a história se desenvolve e várias situações comoventes e intensas na medida.
Há um momento em que ele não consegue abrir a porta para ir ao encontro da vida.
Sabe mesmo aquele lance que o deixa paralisado e não consegue agir? Não consegue sequer se mover! Lá estamos nós, conduzidos pelo diretor Max Mayer.
Há uma cena maravilhosa com um planetário na sala de estar. Nosso apaixonante Adam é de uma inteligência bastante acima da média e brinca com as teses sobre a expansão do Universo.
Nesta metáfora bem conduzida está o , aparentemente frágil jovem que vive fora do ar, literalmente entre a intimidade do mundo da astrofísica e a emocionante descoberta de doces guaxinins no Central Park. Outra cena linda.
Demitido e perdido nesta galáxia estranha chamada mundo, nosso amigo vai ter que enfrentar o desafio de sobreviver. Sem as armaduras sociais e falando apenas a verdade ele nos conquista.
Uma roupa de astronauta no meio da sala. De repente o amor de alguém sem preconceitos e disposta a aprender com o diferente. Enfim, dois malucos no melhor sentido.
O filme aborda a solidão e o isolamento a que todos estamos de alguma forma acometidos, aspergerianos ou não.
Eu amei!!!
beijo
de verdade
da melind@

sábado, 17 de abril de 2010

Eu , você e todos nós..


Eu sempre assisto aos filmes com um pouco de atraso. Ontem assisti "Eu, você e todos nós". Um filme , no mínimo, muito interessante que suscita perguntas. Sobre todos os que conhecemos ou todos que podemos conhecer ou ainda, sobre até que ponto nós os conhecemos( todos nós) e sobre o que pensamos que conhecemos (nós) . Com certeza um filme sobre as muitas formas que existem de encontrar pessoas e percebê-las de verdade.


Um filme sem belezas fáceis e cujos diálogos são certeiros. As personagens bebem seu copo até o fim, ou seja, são corajosos demais e portanto é um filme.


Na contramão de qualquer generalidade, achei a história uma aposta nas incursões pelo comum. Não tem clichês e trata com intensidade toda e qualquer verdade humana, da aparentemente banal até a supostamente visceral.


Sabe aquele filme imprevisível? Diálogos inesperados , personagens inesperados e que levam o espectador a se encontrar secretamente com todos eles. Afinal somos um pouco de cada lugar, cada pessoa e cada lance que vivemos e que ainda vamos viver.


O filme é de 2005. Miranda July dirige e interpreta.


A história que envolve pessoas comuns, consegue mostrar vários olhares(enfoques) através de cada personagem , mas dá a sensação de que todos são a mesma pessoa.



beijo nosso de cada dia......
melind@
. eu
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Lindo

segunda-feira, 12 de abril de 2010

....Será que é melhor viajar com esperança do que chegar?

Será que é melhor viajar com esperança do que chegar?
Pois então, às vésperas do meu aniversário estou eu aqui com esta pergunta a martelar-me as idéias. Hoje à tarde ainda conversava com uma amiga sobre a ampla questão que é nossa abordagem da vida. Falávamos sobre probabilidades. Probabilidades de acertar na mosca. É como se houvessem tantas e tantas informações acerca de cada lapso espaço-tempo em nossa vida-existência que nos tornasse impossível ter uma visão completa.
O fato de estarmos privadas da concepção integral da realidade nos amarra aos tecidos de nossas crenças ou se preferir nos aferra ao conjunto de coisas que aprendemos a acreditar que são a realidade. Nunca conseguimos ter um campo visual , uma percepção integral de algo e nem de nós mesmos. Ou será que , como num holograma, poderia haver a natureza do todo em cada parte? Será que nos falta mesmo usar sentidos ainda adormecidos?
Acho que somos prisioneiros de nosso microcosmo hermético e bitolado!!
Começei a ler ainda que tardiamente " O Universo numa casca de noz" do renomado físico Stephen Hawking . Talvez pensar sobre temas tão complexos e perceber que caminhamos tanto e tão pouco, torne tão improvável entender como impossível não abrir a mente para novas formas de compreender a realidade!!
E quando se chega a determinados degraus pensar sobre isso é quase como respirar.........
Feliz aniversário Melind@

domingo, 11 de abril de 2010

Por um Sábado sem Domingo..

O Domingo é uma espécie de crime sem perdão. A pena é tê-lo toda semana pela eternidade.Não sei bem, afinal,parece um filme repetido. Eu pareço uma reprise de domingo, mas se a vida não tem ensaio, não tem replay? Vai entender. Qualquer semelhança é mera coincidência. Já disse isso!
Enfim, talvez seja culpa do meu inferno zodiacal. Afeta minha percepção.
Acho domingo um show de “desmanchaprazeres” combinados. Tipo caloria zero. Desodorante sem perfume. Sopa sem legume. Passeio no campo sem estrume.
Deve ser por isso que a Coca-cola vai investir mais uns bilhões aqui no Brasil, é dia de refrigerante , cara de tubaína e cerveja quente.
Falta registro. Crime sem vestígios. Dia do desinteressante. Acho que é isso. Sem trilha sonora, sem efeitos especiais. Produção barata, elenco pequeno. Platéia vazia. Deve ser por isso que é um dia de descanso e as pessoas aproveitam para fazer exercícios. Véspera do início da dieta( segunda -feira) e pior, véspera de segunda-feira. Dia da insônia. No domingo me acho uma oração sem sujeito, ou pior um sujeito indeterminado. Um filme com péssimo roteiro.
Mas , se removesse o tal dia da semana ia sobrar para o Sábado que eu amo. Desta forma, deixa o Domingo porque ele é necessário para alinhavar. Sendo assim entre as nitroglicerinadas aventuras de sábado e o retorno ao trem pagador na segunda fica o domingo. Chato e enfadonho domingo.

Chato e enfadonho, cinza ou tristonho
volta sempre o mesmo dia,
o domingo medonho.
Curto ou comprido tedioso
esquecido
torna o fim da semana
com espeto corrido.
Vazio ou intenso, fugaz ou imenso
é sempre eficaz na perda do senso.


Um beijo
sem senso
da melind@

Post tarja preta

Este é um post tarja preta. Se teve acesso a ele devem ser as prescrições do seu psicopata interior, seu manejo é de sua inteira responsabilidade. Não é recomendável ingerí-lo porque possui contra-indicações e pode causar uma série de efeitos colaterais ,tais como contrariedade, irritabilidade , tédio e vontade de mandar a autora para aquele lugar que a sua mãe não aprovaria.
Há ainda as reações adversas, risos são até esperados, embora improváveis. Se causar impaciência e uma exagerada intolerância vai indicar que você é um animal de sangue quente nas veias, não é um réptil e isto pode ser um bom sinal.
Se tiver a sensação de que está sendo enrolado e sentir uma certa sonolência, este é o efeito esperado, normalmente a ação metabólica durante a ingestão do post, seja por via oral, visual ou de acordo com sua criatividade, é imediata.
Se não se manifestarem os efeitos esperados no tempo indicado repita a operação mais uma vez.
Se, verificando uma certa dose de ironia, sentir alguma ponta de espanto, siga com o procedimento até o final, seja lá onde ele pretenda chegar. Observe ainda se não ocorrerá a pergunta:
- O que é que isto?-pronunciada num tom arrastado e enfático.
Não foram verificados em estudos com ratos de laboratório reações do tipo violenta e hostil com intuito destrutivo, o que não significa que não possa ocorrer com você.
Não interrompa o tratamento em nenhuma hipótese.
Não desaparecendo os sintomas vá pentear macacos, se achar algum.
beijo proscrito
da melind@

    Fio  Entrei no absoluto e simples vagar do tempo. Invadi os espaços aparentes que reservei para um dia. Olhei minha própria fa...