domingo, 1 de agosto de 2010

Tudo pode dar certo...

Assisti ao filme "Tudo pode dar certo" do Wood Allen neste final de semana. Gostei, como de quase tudo que ele já fez. E ainda dá pra traçar um paralelo com o livro do Roth (A Humilhação) que eu acabei. Ambos abordam a velhice. Ambos abordam um "suicídio". Ambos os protagonistas, um tanto misântropos, vão encontrar seus destinos. Tanto Axler(ator) quanto Boris (um físico) saem dos seus eixos e vão buscar no outro extremo de suas vidas um refúgio. Mas, claro a abordagem de Allen é totalmente outra.
Eu adoro o humor dos filmes de Wood Allen com aqueles textos que transbordam inteligência e a acidez do personagem Boris Yellnikoff (Larry David) é super bem dosada.
Ele simplesmente rompe a cena e conversa com a platéia. É uma forma inesperada, mas acaba sendo super legal. Mas por mais que ele despeje sua arrogância pessimista há um intervalo de doçura que o torna quase íntimo e confiável.
Fiquei impressionada. Há cenas perfeitas como aquela em que ele tenta encontrar sentido em seu encontro com Melody(Evan Rachel Wood) , a garota caipira do Mississipi que envolve a todos por sua suavidade autêntica. Como duas pessoas tão diferentes, cada uma fugindo de sua história, acabam se encontrando e alterando a vida uma do outra.
O Boris é um quase suicida, quase nobel e atual professor de xadrez de garotos que ele despreza.
A Melody é uma ex miss que não entende muito o que Boris diz, mas toma tudo como sua própria verdade. Aceitando humildemente ser discípula de suas teses, mesmo sem entendê-las.
Pouco a pouco outros personagens também vão ser transformados pela cidade de NY, ao bom estilo do diretor. Rompendo tabus com sua crítica mordaz.
Beijo surpreso
da melind@

Envelhecimento...

Eu ontem terminei de ler "A Humilhação", de Philip Roth". Confesso que fui com sede ao fim do pote e esperava mais. Fiquei esperando um episódio que alterasse o rumo de Axler, que protagoniza um ator já passado dos sessenta anos e que não consegue mais atuar. Em um determinado momento ele passa a não caber mais dentro da própria vida. Entropia.
O caminho que Axler percorre para a morte passa por um momento de retomada da vida , mas soa irônico e um tanto falso. O protagonista só consegue ser autêntico quando aborda seu declínio. Algo parece postiço no romance que ocorre entre Ax e uma lésbica quarentona.
Mas eu gostei de experimentar aquela catárse onde não se consegue mais convencer no próprio papel . Nosso homem teve uma carreira gloriosa no teatro e estranhamente passou a não conseguir atuar ,nem mesmo no próprio personagem. Perdeu o texto de sua vida. Que medo!
Fiquei pensando no aspecto pesado do título " A Humilhação".
Envelhecer(tema que transborda ) atualmente é como fazer MBA na área de gestão da própria vida. Não tem clichê. Cada um por si.
Não vejo decrepitude nem humilhação passando por perto.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Na curva dos acontecimentos encontrei Clarice...



Por vezes eu me paro a observar a curva dos acontecimentos. Como seria esta curva?
Há momentos em que você se depara com uma sucessão de fatos encadeados inesperadamente. Algo rabiscado na orelha de um livro.Uma esquina onde distraidamente esqueceu de dobrar , uma gaveta aberta ou um telefonema. Eu diria que encadeados pelo acaso. Pelas linhas que tecem o pano dos acontecimentos. Também poderia ser uma conspiração mundial pra você acreditar que está vivendo um filme de ficção. Que a vida é ficção e que todas as alternativas sempre podem estar corretas.
Estava lá eu vasculhando uns trecos e achei esta prelucidação da Clarice Lispector me falando sobre as coisas que eu tanto tento dizer e não consigo.Como é que ela adivinhou? É claro que eu estiquei a mão e toquei.. Ou melhor, fui desencontrada, como no conto "Amor" da mesma autora, quando ela viu do bonde um cego na calçada( Leia o conto! Oras!). Primeiro senti um ímpeto de engolir em seco, mas deixei a saliva encher minha boca. A Clarice foi meu cego na calçada. Foi o ataque terrorista à torre mãe.Ouvi o que ela tinha a dizer e senti um desarranjo na minha frase. Decidi que nunca mais teria certeza. Que bom! Não desejo mais a resposta certa. Nem quero a resposta , porque ela está em toda parte de mim. Da-me tua mão.. Dou a mão mas não preciso entender, porque entender não é o bastante. Vasculhei as notas das músicas sobre as ondas do ar, penetrei nos espaços entre a carne e assenti que queria estar ali, nos interstícios da matéria primordial. Ali na linha onde passa a curva dos acontecimentos , onde tudo respira e ganha sentido porque não pode ser entendido. Quero estar entre o número um e o número dois. Estar depois do ponto que une dois pontos. O limbo é infinitamente mais promissor do que o portal das palavras.A idéia apenas segue o sentido da curva respirando o mundo e penetrando em seu silêncio pujante. Na curva dos acontecimentos encontrei Clarice, que é sempre uma forma de olhar a própria experiência e contemplá-la. Contemplá-la.Contemplá-la através dos olhos de Clarice.

Inspirada no poema "Da-me tua mão" da Clarice Lispector


Um beijo inconsequente

da melind@

quinta-feira, 29 de julho de 2010

AmEaÇa

A sequência de assaltos às residências aqui na minha redondeza está me tirando o sono. Literalmente. Penso que durmo enquanto escuto os barulhos da casa. O farfalhar da coberta. A respiração. A folha que cai da Pata de Vaca sobre o muro ao lado. Sobressaltos enquanto o vento sacode uma janela . Atenção aos passos que se arrastam longe na calçada. Tudo pode ser o início de um pesadelo. De algum lugar a razão pensa em qualquer atitude de defesa. Para onde correr?
Como podemos viver assim? Não há limites para o banditismo.São destemidos os indivíduos que perpetram crimes desta e todas as ordens. São intrépidos e desvestidos de alma. Não podem mais acreditar em suas vidas. Estão dispostos a qualquer enfrentamento. Uma câmera, um cachorro. Não existem fechaduras indecifráveis. Estão armados de ódio. Estão autorizados pela total falta de limites.
Uma janela quebrada, um alarme soando, dois. Sensores, trancas, grades. Não importa se todos acordam. São alguns minutos o bastante. Recolhem qualquer coisa que possa ser parte do escambo pela droga. Qualquer coisa que possa ser negociada com a corrupção do submundo. Fazem disso seu "ofício".
Do outro lado restam pessoas esvaziadas. Tomadas nuas no meio da noite . Arrancadas de seu sono pelo medo. Corações acelerados. Adrenalina e calafrios. Por seus filhos chorando. Cães latindo furiosos. Nada obstaculariza o intento . As pessoas estão sós. Estão abandonadas com suas grades, seguros, cães e todos os pontos de alarme da casa. Estão por sua própria conta, assim como os garotos perdidos que estão do outro lado da janela.
É um momento de atitudes extremas. Estamos todos em uma guerra velada. Uma peleja pela sobrevida que ainda nos resta diante da ameaça que ronda pelas ruas . Pode-se ouvir um tiro. Pode ser que amanhã no jornal esteja estampada a foto de alguém com uma cara boa. Podem estar as iniciais de um moleque que também jogava bola num campinho aos Domingos. Ficamos entrincheirados até que o tempo nos diga que ainda não foi desta vez. Até que se rompa a expectativa.
Não sei o que sentir. Não há lado para escolher. Fico aqui disfarçando meu medo e vasculhando uma forma de fugir.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Descoberta

Ela ainda não entendia o porquê de toda aquela adrenalina. Simplesmente começou a anotar num Blog. Assim, depois de romper com uma situação. Decidiu fazer um novo pacto. Um pacto com a Palavra! Achou que aquilo fosse uma atitude inconsequente, que iria cansar logo e acharia tudo uma bobagem. Afinal nunca tinha persistido em outros projetos loucos. Seria mais um capricho . Um lance de descoberta que logo ia virar um endereço vazio. Tipo "ops o internet explorer não conseguiu localizar ..." Os dias foram passando e os verbos eram imperativos demais. Cada vez sentia-se mais atraída por aquele instante . Aquele de abrir uma nova janela e cuspir seus pensamentos no teclado sem pudor. Passou a cultuá-lo. Aquele Ato. Como na sequência de uma peça teatral. Era quase uma liturgia. Era uma conversa com sua fantasia . Queria eliminar os gerúndios. Era um monólogo se desenrolando de dentro dela, para além de seus ouvidos obstinados. Reencontrava personagens de livros e crônicas. Todos eram experimentados. Revisitava histórias. Assim sem promessas.Tinha licença para revelar os segredos que não conhecia. Credenciava-se agora para interpretar as evidências. Aos poucos foi abandonando a trava de principiante e apaixonando-se pelo estado de coisas que brotava daquela condição. Queria contar seus truques . Flertar com o vexame. Escrever era libertador. Acordava com as palavras andando sozinhas dentro dela. A febre não passava e ia ficando inquieta, ia sufocando de tantas palavras ruidosas . Quando não apareciam ela ficava agitada do mesmo jeito , carecia pensar em algo para satisfazer aquela inquietação barulhenta que podia ser auscultada latejando nas pregas vocais e vibrando na sua faringe. Estava viciada nas palavras. Necessitava delas assim mesmo, sem ser meticulosa, sem cautela . A desordem das palavras a ordenava . Precisava delas. A evasiva das idéias a preenchia e alegrava. Tinha que se entregar ao faz de conta. Tinha que se repetir. Deixar que suas personagens tomassem conta da caricatura que ela sustentava. Escrever decifrava a trama e desmascarava a farsa. Pensava desde criança em como o mundo podia continuar tão vivo e acontecer enquanto ela estava em casa . Como tudo poderia acontecer sem que ela contasse ? Mesmo que fosse para ela mesma. Seria como se estivesse morta. Como se não se importasse. Enfim, respondia às perguntas que observavam as pessoas silenciosas passavando pela rua. Estava autorizada a explicar aquele olhar que ontem à noite parou no seu ou mesmo a representar a tristeza que percebeu nos lábios calados da dor. As respostas estavam ali. Não importava o que escrevia . Não importava se o texto fosse ruim. Idéias não se repetem.Como a vida. Como Palavras enfarpeladas... São infinitas. Escrevia porque não sabia pescar e nem colecionava nada. Não conhecia um jeito melhor de fotografar a vida. Descobriu que aquele vício era ela. Ela era o vício e a cura.

Deserto

Meu verbo é tímido e inseguro,

transpira verdade em versos

poucos pois tem a palavra

vasta pra se esconder



Se traduz no vapor das letras

de um dialeto que

não sabe falar

só faz sentir e soletrar



Basta a sala fechada

a deixá-lo embriagado de

tanto se investigar e



quando a luz insiste em entrar

ilumina o vapor sólido e se põe

a revelar as cores das impurezas que

se mesclam e elaboram


Diz que busca o entendimento

pra não se encontrar



O verbo encantado fica tentado a

tão somente divagar

mergulhado na própria densidade

equivocada que esculpe uma busca

de arrepiar ..

E assim se perde no vento


de verdades que não pode encontrar


O tempo a lhe procurar


como se houvesse um jeito


de esperar um pouco


Nasce um deserto imenso e árido


de sentido,com as cores fustigadas de contradições,

onde não há sombras pra se esconder,

Este é o refúgio manso e intenso do intervalo

entre dois fatos, dois atos,

duas vidas...

domingo, 25 de julho de 2010

Saudades do futuro que acreditei...

"E é só você que tem a cura para o meu vício/
De insistir nessa saudade que eu sinto/
De tudo o que eu ainda não vivi. "
Renato Russo


Hoje eu conheci pessoalmente, por acaso, uma doce professora de alemão, de seus setenta e poucos anos, talvez oitenta. Destas pessoas que imediatamente evocam qualidades de um tempo.Em poucos minutos viajei por suas décadas e vislumbrei com saudades um tempo que nunca vivi.Talvez pura nostalgia. Lembrei de meus pais.Uma sensação estranha esta. Existem pessoas que se traduzem de uma forma tão própria que fica impossível reproduzir.

A geração que viveu na primeira metade do último século tem uma marca muito clara sobre a história que estamos colhendo agora. É possível sentir quase que fisicamente a vigorosa força construtitva que imprimiram ao mundo.

Aqui, em Bigrivertown, uma cidade antiga com função histórica muito bem definida, há um lamento saudosista dos tempos glamourosos que se foram . Algumas pessoas se tornaram museus históricos em carne e osso. Já restam poucas para falar da famosa Gruta Baiana, visitada por turistas internacionais ou ainda da Confeitaria Sol de Ouro, cujos doces tinham fama internacional. As grandes noites do Teatro Carlos Gomes, que cheguei conhecer já um pouco destruído. Também dos áureos tempos do Teatro Glória ou do Café Dalila(meu contemporâneo).Um tempo onde comprava-se em armazéns , como o Sete de Setembro , do seu Elisiário, marido da Dona Júlia, que comprava suas frutas e legumes de um Verdureiro que vendia de casa em casa com uma imensa carroça, abarrotada de delícias frescas e gostosas. Tempos de retirar livros da antiga Biblioteca Pública. E andar de Bonde?

Um porto de grande visibilidade e rotatividade que era inclusive rota do turismo internacional.

Me chamou atenção este encontro justamente porque a cidade está vivendo um momento de reaquecimento. Infelizmente não do ponto de vista cultural. Não sob o ponto de vista da cordialidade e urbanidade. Resta apenas um cinema na cidade e outro no balneário, mantido valentemente por seu proprietário, durante os bons e difíceis tempos vividos pela sétima arte(no velho estilo). O Teatro Municipal(único) vive altos e baixos, é de tamanho pequeno e não comporta grandes espetáculos. O número de habitantes multiplicou-se , o trânsito tornou-se caótico e as motos entulham a face urbana e empoirada dos prédios misturados. Cidade Velha. Cidade Nova. Fachadas antigas alternadas com prédios modernos. Lâminas de asfalto contrastando com ruas calçadas com paralelepípedos( palavra que adorava usar para brincar de forca quando era bem criança).

Alguns patrimônios resgatados subutilizados.

A forte presença portuguesa que aqui fincou suas raízes e da qual sou remanescente começa a perder-se em ruínas e grafites mal ajambrados.

A influência dos imigrantes europeus que vieram trabalhar nas fábricas que despontavam aqui no antigo distrito industrial é evidente no capricho estético das imagens do passado.

O belo canalete das Hortências transformado em esgoto e lixão.

A história das coisas anda pelas ruas , sob o sol, derrama-se pelos cabelos brancos com a solidez das mãos trêmulas da professora de nome forte. Narrou com finura sua curiosidade ao conhecer Dilermando de Assis, protagonista da trama que ceifou a vida de Euclides da Cunha e que aqui esteve "degredado" por um tempo. Personagem das perseguições sofridas pelos imigrantes alemães no período Vargas, presenciou com a mesma envergadura os momentos em que viu achincalhada sua família, por conta da origem alemã, enquanto o mundo voltava-se contra o totalitarismo e se deparava com o holocausto. Tempos dominados ainda pelo ranço oligárquico da República, sob o governo do populista Getúlio. Assitiu impassível os revezes que a vida lhe mostrou. Vigorosa como toda verdade, ela não se repete, mostrar-se sem pudor.

Revelou sua história sem parcimônia, mas com a prudência e a sensatez dos sábios.
Ela conversa na calçada, é carregada pelo vento e entornada nos ouvidos vazios da grande maioria dos habitantes a procura de suas rotinas frenéticas. Perde-se um tesouro.

O passado anda de braços dados com ela, em seu rosto e pelo seu corpo encurvado e sóbrio. Um passado revelado pela sabedoria que colheu de suas vivências.

A contemplação das eternas contradições em nossa cultura.

A verdade é frugal, sem tempo para teatros. É simples, como tudo deveria ser. Apenas é.

Holofotes no crime.


Estas últimas semanas foram marcadas por crimes brutais , carregados pela violência e frieza, mas que não são novos e muito menos diferentes dos que vem sendo cometidos há séculos. Entretanto estava na boca de cada indivíduo a história do goleiro envolvido no homicídio da namorada. Na fila do banco, no salão de beleza , na ante-sala do consultório médico e até ( tristemente) em conversas entre crianças e adolescentes. Goleiro-futebol, Futebol-torcida, Torcida-criançada.

Da mesma forma estava outro crime em Guarulhos da advogada Mércia assassinada supostamente pelo ex-namorado. E assim repete-se a cada vez que um fato lamentável passa a ser turbinado pela mídia e vira comoção nacional .

Enquanto isso , a pouco mais de dois meses das eleições o que menos se destaca é o prato principal . Os candidatos e seus projetos de governo.

No nordeste o voto-bolsa-família, no Rio o coronelismo dos líderes do tráfico nas favelas e tudo continua como d'antes do quartel de Abrantes.

Os séculos que nos trouxeram até aqui contam as duras conquistas galgadas pelas mulheres, todas a custa de muita luta e dor. Entretanto quando tomamos conhecimento de fatos como os veiculados nestas últimas semanas envolvendo ídolos do futebol (questionáveis ídolos), concluimos simplesmente que um pouquinho abaixo da superfície do tecido social ainda somos(mulheres) vistas como cidadãs menores. Muito pior do que isto, nos acreditamos cidadãs menores.

O que leva alguém a permanecer ao lado de um companheiro apesar da humilhação, do medo e dos maus tratos? O que será que explica este tipo de sujeição?

Esta semana que passou eu estava em uma sala de espera enquanto rodava um desses programas sensacionalistas focados no dia à dia violento de alguns bairros da periferia de São Paulo. Prato cheio.

A equipe do programa acompanhava a viatura da polícia militar enquanto atendia uma ocorrência.
Ao chegar ao local a viatura encontrou uma mulher, vítima de agressão por parte de seu companheiro. De quebra o agressor bateu também em um vizinho e provocou alguns danos materiais .

Enfim, quando a vítima deu com a polícia e as câmeras desandou a correr pela rua como se estivesse soltando pipa. Corria de um lado a outro e gritava com o companheiro agressor que havia sido apanhado e imobilizado pelos soldados da brigada.

A mulher achincalhava o agressor à distância enquanto corria e pulava.

- Charles(aqui te batizo). Agora eu quero ver tu me dar porrada.- Cantava marra.

O agressor permanecia escondido atrás da gola como se nem fosse com ele . Olhar distante e constrangido.

Alguns vizinhos(prováveis testemunhas da violência cotidiana) vieram dar opinião enquanto o repórter repetia propositadamente as características do fato.

O soldado pacientemente tentava explicar à mulher que era preciso ir a delegacia fazer um boletim de ocorrência.

-A senhora está me entendendo?- repetia o militar.

E a Shirlei( aqui te batizo) continuava a correr e esbravejar sobre o Charles indefeso como um cordeirinho na outra calçada.

O soldado insistiu na ocorrência e a Shirlei simplesmente respondeu:

- Eu tô te entendendo meu querido. -ofegante- Não precisa ir na delegacia, eu só não quero mais apanhar dele!

Na verdade a Shirlei não queria perder seu companheiro, nem puní-lo, apenas cessar de apanhar. Queria muito pouco, apenas encolher-se com o que lhe cabia do mundo.

A polícia só estava ali apimentando o cenário entre ela e seu Romeu-algoz.

Esta pequena tragédia urbana selada pela fragilidade humana não é privilégio da miséria. Ela é parte da realidade de milhões de mulheres, das mais humildes às celebridades mais impensáveis.Relações perigosas das vítimas com seus carrascos.

Todas mulheres, todas abrangidas pelas mesmas instituições sócio-políticas e , ainda assim , caladas pelo fantasma do medo e da baixa autoestima. E sabe lá o que mais.
Lembro de uma minissérie da Globo chamada "Quem ama não mata" cujos protagonistas eram Marília Pêra e Cláudio Marzo. Excelente descrição de Euclydes Marinho, dirigida por Denis Carvalho e Daniel Filho. Foi em 1982 e me chocou bastante por eu nunca ter vivido qualquer contato com aquela realidade. O título se originou dos protestos em pichações contra crimes passionais (muitas vezes justificados pelo chauvinismo da defesa da honra machista), como o assassinado de Angela Diniz por Doca Street.
Parece que desde então muito pouco mudou. Ainda se lê fatos idênticos cujos criminosos ficam impunes, como o "recente" assassinato da jornalista Sandra Gomide pelo jornalista Pimenta Neves.Apesar de réu confesso, não há condenação.
Relações patológicas que não parecem explicáveis, repercussões absurdas e insolúveis. Até quando?
beijo passional
da melind@

terça-feira, 20 de julho de 2010

Anestesia Geral

Eu não me considero autoridade para falar de nada além de mim, e olhe lá, porque muitas vezes não tenho controle sequer sobre o que vai entre meus pensamentos, tal o bombardeio sem trégua de informações a que todos somos submetidos.Ufânicas idealizações de bem e mal estereotipadas grosseiramente nos convencem facilmente a ficar no lugar comum. Mas vá entender os seres humanos. Falo da hiperbólica poeira midiática sobre a escalada de violência que vem patrocinando a audiência nos noticiários. Uma violência compartilhada palmo a palmo com os "lares" de cada um de nós, banalizada e vivenciada entre as famílias, assimilada por crianças ainda sem maturidade e discernimento.Passou simplesmente a fazer parte do cardápio, assim sem pudor, engolida inteira.

Acho que os campeões do mau gosto são os programas ao vivo sobre ocorrências policiais(violência banal em Holofotes no crime. ) e os que se ocupam dos escandalos sobre a intimidade dos famosos. Depois os programas que fazem a cobertura de esportes , que acabam se restringindo ao futebol (outra onda fanática).

Não tenho por hábito assistir TV(já mencionei ), embora seja uma facilidade para se obter um apanhado geral dos fatos, não resta dúvida(este é o mundo da informação-pobre de você não estiver a par das últimas paradas entre Venezuela e Colômbia ou das barbeiragens do presidente Lula quanto às manifestações do prisioneiros cubanos). O mesmo acaba ocorrendo com os sites de notícias rápidas (tudo tem seu preço). Partindo deste ponto de vista é preciso filtrar e conter esta panacéia orquestrada para dominar audiências e mover gordas cifras em favor dos mecanismos de publicidade e consumo.

Publicidade e consumo, as alavancas do complexo sistema econômico ao qual estamos alinhados. Os criadores do canto da sereia.Estabelece-se a ditadura do "como pensar".

Este domínio apoteótico acaba gerando uma leitura equivocada das coisas e criando uma generalidade moral e eticamente perniciosa. Esta sensação desalentadora de caos nos coloca sentados na platéia novamente. De agentes à pacientes, passivos cidadãos adotando a conduta de rebanho conformado. Não consigo deixar de lembrar do filme Wall-eWall-e , meu mundo e nada mais.... , onde o que restou da humanidade aparece representada por cidadãos obesos( sedentários) conectados integralmente a monitores e teclados em rede, controlados por uma inteligência virtual que lhes provê tudo de que precisam. Isto mesmo, você não precisa pensar, eu decido o que é melhor . Como se aquele modelo anacrônico paternalista de estado fosse substituído por uma forma mais sutil de controle, com anestesia geral. Aquele fazia uso da censura e este se utiliza da vulgarização(torna tudo normal e aceitável).

Isto fica patente quando constatamos a legião de novas seitas e religiões que nascem a cada minuto como capim, ganhando legiões de adeptos perdidos, conquistando novas frequências em rádios FM, sites e canais de TV. Pretendem oferecer "socorro" fácil a mentes vazias. Também se evidencia quando observamos que a parcela mais frágil de nossa pequena horda, as crianças e adolescentes, são arrebanhados por tribos mirabolantes que ditam comportamentos esquisitos e supostamente irreverentes, assim como os pais passam a necessitar de manuais de instruções para educar seus filhos e o Congresso passa a legislar sobre a forma como os pais devem agir ao impor os limites aos seus filhos, a exemplo do Projeto de Lei 2654/2003.

Se entorpece os sentidos( um programinha pode custar um embotamento generoso e todos sabemos o quanto a TV emburrece com suas informações digeridas e prontas para ser armazenadas sem o crivo de nosso próprio discernimento) e preenche a mente com tantas lixeiras inúteis ( você é até capaz de jurar que foi você que pensou aquilo) por que é tão difícil sair deste ciclo vicioso?

Guardo na lembrança a imagem de meu pai abraçado ao jornal Correio do Povo ou escutando a rádio Guaíba no início das manhãs enquanto me preparava para ir para escola. Lembro de crescer em uma casa silenciosa, exceto pelas conversas de seus moradores. Lembro de brincar na rua, ver meu irmão fazer Kart de madeira com os moleques e fazer experimentos desastrosos. Sobrava espaço na mente para observar e observar-se. Tinha horário e limite(dolorosos, mas necessários).


É melhor ligar o alerta pois assim como no mundo do adorável Wall-e, sabemos que existe uma propensão da natureza humana ao fácil, ao delegar ao outro a responsabilidade, só que estas maravilhosas facilidades da modernidade estão nos tornando seres assustadoramente vazios, sem o elemento que nos torna mais genuínos, o fato de sermos únicos e originais. Forjar nossa edição pessoal dos fatos que nos cercam é forçoso. Afinal, quem está no controle?

Acho que é possível sobreviver sem saber quantos mililitros de silicone a Mariposa erótica alçada a condição de celebridade colocou nos peitos ou quem é a nova "Maria chuteira" que está namorando o coisaldinho.

Enfim, não há respostas delivery, é preciso juntar os Retalhos ensadecidos...

O lance é aspirar a poeira!!



Beijo empoeirado


da melind@

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Tóc tóc: ainda tem jeito.

Mais uma tarde de chuva torrencial e frio. A tinta que colore o cenário continua sendo o cinza e o barulho é aquele silêncio entrecortado pela água, sem raios ou trovões, sem brilhos ou empolgação qualquer da natureza. As gotas se desprendem do nada e se acumulam na calçada. Carregam restos das histórias recentes dos personagens que passaram por ali, especialmente as cascas que deixaram pra trás. As cascas descartadas daquilo que o homem não incluiu, restos de gente em meio as sobras e lixo.

A campainha acusa uma presença estranha.

Um rapaz magrinho coberto por roupas acinzentadas pelo dia , sob um peremptório guarda-chuvas quebrado e carregando pelo menos oito sacolas contadas de "lixo" aparece emoldurado pelo postigo.

No outro lado do cenário a impaciênca pergunta:

- Sim! - embora preferisse dizer- Olha hoje eu não tenho nada para lhe ajudar.- Mas respeitou o script e esperou.

-O carro é daí ?- perguntou o rapaz surpreendendo a interlocutora entediada enquanto apontava para o automóvel estacionado em frente.

Parece que ele não decorou seu texto. Mudou o tom. Sua fala deveria ser uma história triste sobre a irmã ou a mãe necessitada, ou ainda sobre a filhinha doente ou a falta de uma passagem.

- Não , não é daqui não . Por quê? - perguntou a curiosidade desconfiada.

- O vidro está aberto! Está molhando tudo!- disse o jovem definitivo.

Errou o texto novamente. E agora?

- Ah! Pois é. Não sei de quem é não!- E ficou muda!A vergonha ficou muda e vazia. Não conseguiu improvisar.

Segurou entre os dentes o "mas de qualquer forma obrigado", que não conseguia pensar.

Faltou perguntar:

- Por que um garoto assim, carregado de sacolas de restos de lixo, com frio e molhado pela chuva, embuchado de "nãos" e achincalhado por todas estas portas fechadas para universos quentinhos e aconchegantes está preocupado com a janela do carro de alguém?

Sentiu aquela sensação estranha e a divagação na mente. O preconceito não se conforma por ter errado a mão.

Qual seria a história por trás daquele rosto. O que haveria escondido naquele olhar gentil encharcado de privação.

Por que ela esperou uma atitude menor daquele ser humano?

Sem mais palavras aquele garoto se foi, andando sob a chuva e carregando (junto com as sacolas de papelão)sua história de certa grandeza diante daquele cenário irritadiço e alagado de contrariedades pela terceira tarde consecutiva de chuvas e intenso frio.

Antes de se afastar esboçou um sorriso de Monalisa, que a deixou com munição para dar um tiro no pé.

O proprietário do carro , que certamente estaria indignado quando o encontrasse inundado(justamente no banco do motorista) não saberia que um benfeitor humilde e anônimo, talvez até faminto, tentara avisá-lo contrariando a ordem vigente do "cada um por si".

Certamente o garoto negro de capuz cinza e olhar molhado não hesitou sobre diferenças, apenas foi solidário e gentil.

- Hei moça: Tóc tóc! Ainda tem jeito!

beijo afogado

da melind@

    Fio  Entrei no absoluto e simples vagar do tempo. Invadi os espaços aparentes que reservei para um dia. Olhei minha própria fa...